11 de fevereiro de 2018

O que esperar do Brasil em 2018?

Eis aí um bom texto, para ler com calma neste domingo de carnaval.

O poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas

André Lara Resende*
Resultado de imagem para 2018O sentimento que hoje dá a tônica no Brasil é o de desalento. Depois de três anos da mais grave recessão da história do país, a economia dá sinais de recuperação, mas ainda não há investimento para garantir um novo ciclo de crescimento. Não há investimento porque a confiança não se recuperou. O país está à espera das eleições presidenciais de 2018. A esperança que ainda tempera o desalento é que o presidente eleito em 2018 seja capaz de recolocar o país nos trilhos. Recolocar o país nos trilhos tem diferentes interpretações, mas há um relativo consenso sobre os problemas a serem enfrentados. Corrupção, criminalidade e violência nas cidades, saúde pública, desigualdade de educação e de riqueza são questões que há décadas nos atormentam e só se agravaram. São questões eminentemente políticas, que dependem do poder público, questões incapazes de serem resolvidas por iniciativas individuais, ou mesmo corporativas, com ou sem fins lucrativos. Temos a impressão de que são problemas nossos, uma especificidade do país que atravessou o século XX sem conseguir chegar ao Primeiro Mundo, mas a verdade é que são problemas que afligem, em maior ou menor grau, todas as grandes democracias contemporâneas. Basta observar os Estados Unidos hoje. A lista acima, dos nossos grandes problemas, seria integralmente aceita para descrever as questões que afligem a mais rica e bem-sucedida democracia contemporânea.

"A modernidade se organizou a partir da crença nas instituições democráticas, na força das leis para organizar e controlar o poder. Difundiu-se a tese de que a melhor maneira de regular a convivência, organizar a sociedade era limitar o poder pelo poder, distribuindo-o entre vários polos e instâncias.

Num pequeno livro publicado originalmente em 1993, "O Fim da Democracia", Jean-Marie Guéhenno, diplomata francês, professor da Universidade de Columbia, defendia uma tese que, à época, parecia precipitada e provocadora. Sustentava que havíamos chegado ao fim de uma era. O período da modernidade, da democracia, iniciado com o Iluminismo do século XVII, cujo apogeu se deu no século passado, se encerrava com o fim do milênio. Diante do mal-estar que hoje se percebe, em toda parte, não apenas em relação à democracia representativa, mas em relação à própria política, a releitura do ensaio de Guéhenno nos deixa com a impressão de se tratar de uma reflexão profética sobre a crise deste início de século.
A modernidade se organizou a partir da crença nas instituições democráticas, na força das leis para organizar e controlar o poder. Difundiu-se a tese de que a melhor maneira de regular a convivência, organizar a sociedade era limitar o poder pelo poder, distribuindo-o entre vários polos e instâncias. As construções institucionais que organizam essa distribuição do poder, de maneira que impeça a usurpação por um deles, ou colusão entre eles, num delicado equilíbrio de distribuição, não apenas do poder, mas também da riqueza, é o que caracteriza a democracia moderna.

"Sem confiança e boa-fé, os elementos essenciais do chamado capital cívico, não há como manter viva a ideia de nação, de uma memória e de um destino compartilhado."
No passado, antes do enriquecimento que acompanhou a era da razão e da indústria, a riqueza fundiária era o único poder. O poder político não se distinguia do poder econômico, ser poderoso era, sobretudo, escapar da miséria generalizada. A democracia institucional da modernidade foi um extraordinário progresso em relação à concentração do poder e da riqueza das épocas passadas, mas, nessa passagem de século, as instituições democráticas se tornaram obsoletas. Há dificuldade em admiti-lo, porque não temos o que pôr no lugar da democracia representativa. Não conhecemos uma forma de melhor organizar a sociedade. As palavras democracia, política, liberdade definem o espectro de nossa visão de um mundo civilizado, mas não temos mais certeza de saber o seu verdadeiro sentido. Nossa adesão, à construção institucional e aos valores da democracia moderna, é mais um reflexo condicionado do que uma opção refletida.
"Quando não existe mais terreno comum fora dos contratos jurídicos, quando não é mais possível, de boa-fé, baixar as armas e confiar, é porque não há mais terreno comum e a decomposição da sociedade atingiu um estado avançado. O estágio final é a decomposição das próprias instituições que fazem e administram as leis."
Com a densidade demográfica e o progresso tecnológico, sobretudo nas comunicações, a sociedade dos homens se tornou grande demais para formar um corpo político. Não há mais cidadãos, pessoas que compartilham um espaço físico e político, capazes de expressar um propósito coletivo. Todos se percebem como titulares de muitos direitos, e cada vez menos obrigações, num espaço nacional pelo qual não se sentem responsáveis, nem necessariamente se identificam. Na idade das redes, da mídia social, a vida pública e a política sofrem a concorrência de uma infinidade de conexões estabelecidas fora do seu universo. Longe de ser o princípio organizador da vida em sociedade, como o foi até algumas décadas atrás, a política tradicional passa a ser percebida como uma construção secundária e artificial, incapaz de dar resposta aos problemas práticos da vida contemporânea. Sem a política como princípio organizador, sem homens públicos capazes de definir e representar o bem comum, a pulverização dos interesses, longe de resultar num consenso democrático, leva à radicalização na defesa de interesses específicos e corporativos. Na ausência de um princípio regulador, universalmente aceito como acima dos interesses específicos, a tendência é a da radicalização na defesa de seus próprios interesses. Não há mais boa vontade com os que discordam de nós, nem crédito quanto à suas intenções.
"No mundo contemporâneo o poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas, das percepções coletivas, que tanto se expressam como se validam na criação de riquezas abstratas, tão impressionantes como voláteis."
Sem confiança e boa-fé, os elementos essenciais do chamado capital cívico, não há como manter viva a ideia de nação, de uma memória e de um destino compartilhado. Num primeiro momento, tem-se a impressão de que a confiança e a boa-fé, vítimas da sociedade de massas, poderiam ser substituídas, sem prejuízo do bom funcionamento da sociedade, pela institucionalização e pela formalização jurídica das relações. O que é um avanço, o domínio da lei, quando levado ao paroxismo, quando se depende da lei, dos contratos jurídicos para regular até mesmo as mais comezinhas relações cotidianas, é sinal inequívoco da erosão do capital cívico. O sistema jurídico, os advogados, se tornam o campo de batalha, os exércitos, de uma guerra onde cada um, cada grupo, se agarra obstinadamente aos seus interesses e "direitos" particulares. Quebrar um contrato, desobedecer à lei, é passível de punição, mas fora dos contratos e da lei tudo é permitido, não há mais princípios nem obrigação moral. Quando não existe mais terreno comum fora dos contratos jurídicos, quando não é mais possível, de boa-fé, baixar as armas e confiar, é porque não há mais terreno comum e a decomposição da sociedade atingiu um estado avançado. O estágio final é a decomposição das próprias instituições que fazem e administram as leis.
Talvez a mais polêmica das teses de Guéhenno, à época da publicação de seu ensaio, fosse a de que o princípio organizador do poder no mundo contemporâneo fragmentado é a riqueza. Não mais o capital, capaz de organizar e explorar o trabalho, como queria a tradição marxista, mas a riqueza em abstrato. Com a desmaterialização da economia, provocada pela revolução digital, o capital e o trabalho caminham rapidamente para se tornar dispensáveis. A riqueza é criada e destruída com extraordinária velocidade e de forma completamente dissociada do que restou do sistema produtivo do século XX. No mundo contemporâneo o poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas, das percepções coletivas, que tanto se expressam como se validam na criação de riquezas abstratas, tão impressionantes como voláteis.
"No mundo onde o relacionamento vale mais do que o saber, onde o poder público é visto apenas como facilitador de interesses particulares, a chamada corrupção, desde que não saia de controle, é apenas uma forma de aumentar a eficiência da economia."
Para Guéhenno, é sob este prisma, do dinheiro como o princípio organizador do poder, que se deve analisar a corrupção no mundo contemporâneo. Longe de ser um fenômeno arcaico, lamentável sinal de uma sociedade subdesenvolvida, incapaz de distinguir entre a fortuna particular e o bem público, a corrupção é um elemento característico da sociedade contemporânea. Quando o Estado e a política deixam de ser o princípio organizador do bem comum, quando políticos e funcionários passam a serem percebidos e a se perceber como meros prestadores de serviços para uma multiplicidade de interesses específicos, é natural que sejam remunerados, diretamente pelos interessados, pelos serviços prestados.
No mundo onde o relacionamento vale mais do que o saber, onde o poder público é visto apenas como facilitador de interesses particulares, a chamada corrupção, desde que não saia de controle, é apenas uma forma de aumentar a eficiência da economia. O valor supremo é a eficiência da economia na geração de riqueza. A política e a alta função pública, há tempos, perderam importância e prestígio. Os sucessivos "escândalos" de corrupção com recursos públicos nas democracias contemporâneas não são uma anomalia, mas a consequência lógica do triunfo do único valor universal que sobrou no mundo pulverizado das redes, o dinheiro, como indicador de sucesso pessoal e de sucesso das sociedades. A riqueza se tornou o gabarito comum, a única referência através da qual é possível estabelecer comunicação entre indivíduos e tribos que nada mais compartilham, a não ser a reverência em relação à riqueza.
O tempo deu razão a Guéhenno. Suas teses, hoje, parecem menos extravagantes. A revolução digital, a pulverização das identidades, a desmaterialização da economia e o fim do emprego industrial tornaram obsoleta a política das democracias representativas. Nosso desalento não é exclusividade nossa. O que poderia servir de consolo é, na verdade, evidência de que o problema é mais grave do que se imagina. É bom que se tenha consciência, para não depositar esperanças infundadas nas eleições de 2018. Para recolocar o país nos trilhos, para dar fim ao desalento, não basta evitar os radicalismos. É preciso ir além de uma proposta moderada reformista, pautada pelo que o país deveria ter conseguido ser no século passado. É preciso ter o olhar voltado para o futuro, e o futuro é o da economia digitalizada, da inteligência artificial, com profundas repercussões na forma de se organizar a economia e a sociedade. Pode ainda não estar claro onde a estrada nos levará, mas é preciso estar na estrada para não ficar definitivamente para trás.
*Economista
Valor Econômico/montedo.com

15 comentários:

Anônimo disse...

O último parágrafo bate certinho com a campanha que a Globo faz hoje na TV com a intenção de lançar Luciano Huck como candidato dentro de uma espécie de "Partido Virtual".
Filmar e falar sobre o que esperamos pro futuro é um material flagrantemente criminoso, pois se antecipa às campanhas políticas de outros candidatos.
Já totalmente pronto e selecionado, será difundido nas redes e na mídia dando a ideia de que é o povo falando ao povo.
A Globo "malandramente", criando sua defesa com o melhor ataque pra cima da IGREJA e do PERIGOSO BOLSONARO.

Anônimo disse...

I will wait the film.

Marcelo Carvalho disse...

Em uma aula na Universidade Columbia, uma das melhores do mundo, o economista André Lara Resende, 64, defendeu um "perdão" consciente a atos de corrupção, pacto que permitiria a superação da agenda de crise no Brasil.

"Temos uma sociedade de baixo capital cívico [conceito que ele define como o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas]. O que causa a mudança?", introduziu. "Vou dizer uma coisa bastante provocativa. Minha impressão é que, quando você tem uma crise como a que temos no Brasil, com a Lava Jato [operação que investiga a Petrobras], a forma que podemos usá-la para provocar uma mudança é dizer: Vamos começar do zero, vamos superar o passado", disse. O QUE ESPERAR DE ANDRE LARA RESENDE?

Anônimo disse...

Se não o melhor,certamente um dos melhores textos já publicados neste blog.Realmente nos leva à reflexão,mas gera um imenso desconforto,exibindo uma verdade,respaldada por fatos,que ainda atônitos,que negamos a acreditar...a democracia está morrendo!

Anônimo disse...

Espero que os Generais parem de fazer política em troca de boquinhas e olhem para sua tropa! Chega de piruações a tropa está sobrecarregada e com um salário mesquinho!

Anônimo disse...

Bom dia prezado Sr. Montedo

Penso que o economista André Lara Resende foi muito feliz neste artigo intitulado “O que esperar do Brasil em 2018?”
De forma sucinta e didática ele deu uma volta “panorâmica” nos principais problemas que afligem o Brasil e o mundo.
O Almirante Mario Cesar Flores, publicou um artigo no Jornal Estado de São Paulo em 25 Ago 16 (na coluna opinião) intitulado “O problema básico da democracia”. Para ler o artigo acesso o link:
http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-problema-basico-da-democracia,10000071832
Os dois artigos de certa forma se complementam e ajudam a entender os novos desafios.
Frase pertinentes:
De Abraham Lincoln:
“Ninguém é suficientemente competente para governar outra pessoa sem o seu consentimento”
"As pessoas são, em geral, tão felizes quanto decidem ser”.
De Rui Barbosa:
“O homem que não luta pelos seus direitos não merece viver”.
De Winston Churchill
“A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”
De Margaret Thatcher .
O Brasil é o país do futuro, mas para tanto é preciso decidir que o 'futuro' é amanhã. E, como bem sabem, isto significa que as decisões difíceis têm que ser tomadas hoje.
“Defendo um Estado pequeno e forte e o que me parece é que o que vocês têm no Brasil é exatamente o inverso, ou seja, um Estado grande e fraco”.
“Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional”.
Segundo o site wikipédia, o conceito da separação dos poderes, também referido como princípio de trias politica, é um modelo de governar cuja criação é datada da Grécia Antiga. A essência desta teoria se firma no princípio de que os três poderes que formam o Estado (poder legislativo, executivo e judiciário) devem atuar de forma separada, independente e harmônica, mantendo, no entanto, as características do poder de ser uno, indivisível e indelegável.
O objetivo dessa separação é evitar que o poder se concentre nas mãos de uma única pessoa, para que não haja abuso, como o ocorrido no Estado Absolutista, por exemplo, em que todo o poder concentrava-se na mão do rei. A passagem do Estado Absolutista para o Estado Liberal caracterizou-se justamente pela separação de Poderes, denominada Tripartição dos Poderes Políticos.
As funções típicas do executivo (administrar a coisa pública-república), do legislativo (legislar e fiscalizar) e do judiciário (julgar, aplicando a lei a um caso concreto que lhe é posto, resultante de um conflito de interesses) estão muito desvirtuadas no Brasil atualmente. Verificasse um executivo inerte, um legislativo que não legisla e um judiciário que não julga. Os fenômenos da judicialização da política, a politização das atividades do judiciário e a total impotência frente aos novos desafios do executivo são exemplos claros desses desvios.
Os desafios para o Brasil são enormes…..
Precisamos, inicialmente, todos nós (cidadãos brasileiros) compreender os fenômenos da atualidade e se engajar nas soluções.
Que DEUS nos ilumine para que tenhamos uma sociedade mais justa e igualitária!!!!


Anônimo disse...

Texto cansativo e massante

Anônimo disse...

No Brasil não temos corrupção, temos é promiscuidade.

Anônimo disse...

A ganância por dinheiro e poder faz o homem público corrupto se afastar da sua verdadeira missão a serviço do país. Se for político, democracia só na hora de fazer discursos e pedir votos.

Alan Gustavo Santos disse...

Bla, blá, blá, blá, professora do personagem Charlie Brown,
E nada, nada muda, continua tudo igual.

Anônimo disse...

Parece que esse Luciano Huck,(que se refere o anônimo de 11 de fevereiro de 2018 07:51), tem o mesmo pensamento do FHC com relação à maconha.
Imagine ele como Comandante Supremo das Forças Armadas.´Seria um "barato".

Anônimo disse...

Não espero nada porque este país acabou a muitos anos atrás !!!!
Hoje é nada mais nada menos do que uma terra de bárbaros !!!!!!!

Sgt Cav 97/98 quem sabe 99 ou 2000

Anônimo disse...

Esse pensamento virou regra na África do Sul e foi a única saída, segundo Desmond Tutu, para que a segregação racial não repercutisse nas geração futuras.
O perdão é um caminho, para um novo caminho.
Pena que o colega acima seja um bitolado e não tem neurônios suficientes para refletir.

Anônimo disse...

Rolando Lero....falou tudo e não disse nada.
Montedo, pára com isso!!!

Anônimo disse...

Ah....nas FFAA não existe militar maconheiro?
Vc vive em que planeta, garotinho?
Vc foi criado tomando leite com pêra? Ovomaltine?

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