29 de setembro de 2013

Herói por acaso

ELIZER PENNA*
Revolução de 1932. Quando as tropas do Rio Grande ocuparam Itararé, o general Waldomiro Lima, comandante das forças legalistas, decidiu tomar também Itaberá, e, em seguida, Taquari, para, depois de ultrapassar Itaí, ocupar Avaré. Ao dominar esta cidade, pretendia o general cortar a passagem das tropas que, vindas de Mato Grosso, comandadas por Bertoldo Klinger, demandavam à capital paulista, onde se deveria travar a grande batalha da revolução deflagrada pelo movimento constitucionalista de São Paulo.
Percebendo a manobra do comando gaúcho, o coronel Barreiras, chefe dos batalhões aquartelados em Taquari, decidiu fortalecer as defesas da cidade, repelindo as iniciativas de Itararé onde estava instalado o comando de Waldomiro Lima.
No seu esforço, Barreiras convocou um grupo de jovens civis, determinando-lhe a abertura de trincheiras na estrada da cidade, precisamente no começo da saída de Itaberá, de onde certamente viriam as forças gaúchas. Dentre esses moços, estava João Siqueira, entusiasto dos ideais paulistas. Mas, como era natural, os rapazes executavam a tarefa, olhando o que tudo indicava, viriam as unidades inimigas. Súbito, vendo a formação de intensa poeira na estrada, um dos moços gritou:
– Lá vem os homens!
Foi uma correria danada. Em autêntica debandada, os heróis largaram enxadas, pás e picaretas e fugiram no rumo do quartel, a fim de comunicar ao comando paulista a chegada dos gaúchos.
Mas, que surpresa. Na verdade, minutos depois, verificou-se que as forças inimigas não passavam de um bando de éguas que corriam pela estrada, causando a poeira. Houve, porém, um fato inusitado: quando o comando paulista chegou às trincheiras, na hora dos falsos avisos, só um rapaz não havia corrido, continuava tranquilamente em sua missão, não atendendo aos avisos dos demais: era João Siqueira.
Logo mais, à tarde, o comandante Barreiras chamou os moços para uma advertência. Na presença do coronel, foram censurados pela correria. O chefe falou duro:
– Vocês todos correram. Foi uma vergonha!
Depois emendou:
– Todos, não. Houve um aí que mostrou coragem, fibra. Apesar dos gritos de vocês, ele se manteve firme: é o João Siqueira, que aqui está e merece nossos cumprimentos. Ele, repito, não atendeu os gritos covardes de vocês! Vai ser condecorado.
O coronel não sabia que João Siqueira não ouviu os avisos dos companheiros. Ele era surdo como uma porta...
*Advogado; jornalista
DIÁRIO DA MANHÃ/montedo.com

2 comentários:

Anônimo disse...

Hein?

Anônimo disse...

Tem coisas que é melhor ouvir do que ser surdo.

Arquivo do blog

Compartilhar no WhatsApp
Real Time Web Analytics