14 de dezembro de 2012

Simulador ‘Safo’ permite tiro virtual e economia real da artilharia do Exército

Equipamento desenvolvido por empresa espanhola e militares brasileiros projeta cenários e condições climáticas diferentes, faz deslocamentos da tropa em helicópteros e avalia desempenho ao fim do exercício. Medida deve poupar R$ 40 milhões por ano em munição

Raphael Gomide
Camuflado pela escuridão e deitado em uma elevação, o integrante das Forças Especiais do Exército Brasileiro, infiltrado em território inimigo, usa os binóculos de visão noturna para localizar um conjunto de baterias de artilharia adversário, que pode barrar o avanço das tropas. Auxiliado por um especialista em comunicações, o observador dá as coordenadas por rádio para a artilharia, a 15 km dali, atrás da cadeia de montanhas, neutralizar o inimigo. Se o meio disponível fosse um bombardeio aéreo, o alvo poderia ser marcado à distância com laser. Neste caso, o observador avaliou que o alvo não justifica o alto custo da munição aérea. Segundos depois, ouve-se o disparo dos tiros e o silvo da granada antes de explodir precisamente sobre os alvos. Missão cumprida.
A partir de 2014, os militares poderão praticar missões virtuais como esta antes de ir efetivamente a campo, na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende e no Centro de Instrução Blindada de Santa Maria (RS). O Exército terá o Safo (Simulador de Apoio de Fogo), um dos mais modernos do gênero no mundo. O software do equipamento, customizado para a artilharia nacional, está em fase final de desenvolvimento conjunto, com a empresa espanhola de defesa Tecnobit.
Seguindo as diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa, o contrato prevê a transferência de 100% da tecnologia para o Exército e compensações do mesmo valor investido, 13,98 milhões de euros (ou R$ 37,9 milhões, ao câmbio do dia 5).
O simulador vai ajudar na instrução de tiro de artilharia, cuja munição real é muito cara e cuja prática enfrenta restrições devido ao tamanho de áreas de treinamento. O Exército estima uma economia de cerca de R$ 40 milhões em tiros de artilharia por ano, com a adoção do simulador.
“A guerra é cara. Um tiro de granada auto-explosiva custa mais de R$ 2 mil. Se for com fumígeno, esse valor se eleva para R$ 5 mil, R$ 6 mil. O custo de uma granada inteligente, então, varia de US$ 30 mil a US$ 70 mil. A artilharia do Exército dispara entre mil e 1,5 mil tiros por ano, em orçamento da ordem de R$ 49 milhões. Um estudo estimou a economia com munição em R$ 40 milhões por ano, o que paga em um ano o investimento no simulador”, disse o tenente-coronel Rubens Pierrotti, chefe do projeto.

O nome do simulador faz alusão ao jargão militar “safo”, que descreve alguém desembaraçado, descomplicado, com iniciativa. Por simular ainda fogos aéreos e navais – e não apenas de artilharia – virou a abreviação de Simulador de Apoio de Fogo.
A Aman e o Centro de Instrução Blindada de Santa Maria servirão como centros de simulação e prática para os artilheiros do Exército e da Marinha de boa parte do País – abrangerá 76% das unidades de Artilharia e 85% dos estabelecimentos de ensino da arma. A estrutura física do primeiro, em Resende, já está quase pronta. No segundo, o terreno passa por terraplenagem.
Os simuladores serão instalados em complexos construídos para esse fim, com auditório, salas de briefings, e um galpão para a instalação dos obuseiros da chamada “linha de fogo” –– de grupos de artilharia de campanha. Diferentemente de outros simuladores existentes, que atuam apenas na chamada “linha de fogo”, a ponta, o Safo engloba todos os subsistemas da complexa arma de Artilharia: linha de fogo, topografia, observação, comunicações, direção e coordenação, logística, busca de alvos e meteorologia.
Ao lado do complexo que abrigará o Safo, haverá espaço para um acampamento militar com 18 barracas – 15 para a tropa e três para o “rancho” (refeitório) – e seis banheiros. O objetivo é que os militares se sintam no front durante o exercício. Em Resende, toda a infra-estrutura de eletricidade, água e esgoto e rede de fibra ótica precisou ser construída, e o custo total de instalação foi de cerca de R$ 6 milhões.

Estrutura interna
Na sala de simulação, os postos de observação serão três diferentes, de acordo com o cenário escolhido, projetado nos telões à frente, de 180 graus: casamata (já pronto), trincheira e combate urbano, com áudio 5.1 ao redor, de modo que os militares se sintam efetivamente no campo de batalha.
O instrutor define no simulador as variáveis do exercício – terreno, meteorológica, inimigo, etc –, que pode ocorrer em meio a uma tempestade de neve, granizo, de dia ou à noite, dependendo do objetivo. Os instrutores observam a atuação dos alunos por vidros espelhados e câmeras, da sala de controle. O Safo funcionará com armamento real, com sensores, e os militares vão manusear o obuseiro e disparar o tiro efetivamente, mas a munição não é real. “É como se estivesse executando o tiro, só que não destruímos o alvo de fato”, explica Pierrotti.
O equipamento é capaz de simular todos os tipos de obuseiro, apoio de fogo aos níveis de batalhão, região militar e divisão, apoio de fogo adicional de artilharia aérea e integra as manobras com inteligência. Na instrução, o militar pode usar binóculos de visão noturna, rádios, bússolas, telêmetro laser – basta programar o material desejado para a instrução. O observador se desloca virtualmente no terreno simulado a pé, embarcado em viatura, ou em avião ou helicóptero. Até mesmo um Vant (Veículo Aéreo Não-Tripulado) pode ser enviado para obter informações.
“O simulador respeita as leis da física, de velocidade e som e condições meteorológicas. Se tiver ventando, a fumaça vai balançar de acordo com o vento, por exemplo”, disse o tenente-coronel Pierrotti.
O equipamento é capaz de simular ainda a resposta do inimigo e a movimentação das tropas, uma vez alvejadas – e pode servir para testar doutrinas novas, como um “laboratório operacional”. Ao fim do exercício, que abrange todas as fases e componentes de um tiro real, o software faz a avaliação do exercício.
“Melhora muito o adestramento, porque podemos repetir o procedimento e avaliá-lo. O Safo acrescenta uma etapa ao adestramento: em vez da instrução técnica e do adestramento na unidade militar, acrescentamos o simulador como terceira etapa, antes do exercício real, no terreno. Quando o militar chega a esse ponto, já consegue melhor desempenho, porque já praticou no simulador”, explica Pierrotti, que coordena desenvolvimento do projeto e já atuou no programa que resultou no computador palmar militar da Imbel.
Para inserir informações de novos terrenos para treinamento, basta um mapa em 2D, que o software o transforma em um novo local de treinos. Assim, em caso de uma missão real na Amazônia, por exemplo, os militares já poderão se familiarizar e ambientar com o local exatamente retratado na simulação.

Contrato


O contrato, no valor de 13,98 milhões de euros (R$ 37,9 milhões) foi assinado em outubro de 2010, entre o Exército e a espanhola Tecnobit, responsável pelo Simaca (Simulador de Artilharia de Campanha) do Exército espanhol, modelo com dez anos de uso e menos sofisticado que o Safo, segundo a empresa e o Exército.
“Desenvolvemos um produto novo, com a doutrina do Exército. Não é um pacote fechado, mas customizado e permitirá adaptações futuras, além de a tecnologia ser transferida integralmente para o Brasil, que se tornará teoricamente capaz de criar novos simuladores militares – entrando para um restrito grupo de países com essa capacidade”, disse Marcus Bispo, engenheiro de sistemas da Tecnobit.
O acordo de compensação comercial prevê investimentos da empresa espanhola em valor equivalente ao do Exército, inclusive com a instalação de um laboratório de simulação no CTEx (Centro Tecnológico do Exército). Se o equipamento for vendido a outro cliente, o Brasil terá direito a royalties, dado o desenvolvimento conjunto.
Embora ainda esteja em fase de implantação, o Safo na Aman já recebeu visitas de militares de 11 países, como cadetes de West Point (Academia de formação de oficiais do Exército dos Estados Unidos), Colômbia, Argentina, Chile e outros países da América Latina. O Brasil pretende usar o simulador para promover intercâmbio regional.
iG/montedo.com

3 comentários:

Anônimo disse...

Mas tchê, baaahhh... que perigo vivente. Mefez lebrar dos tiros de um dito GAC matando vacas dos fazendeiros vizinhos ao campo de instrução de Santa Tecla... pelo menos com o simulador as vaquinha vãio ficar vivas ... Vamos montar um exercito on line? Na verdade já existe um jogo chamado WAR pela internet, poderiamos ficar em casa cada um controlando o seu exercito... Porque uma politca de valorização do profissional ninguem para para pensar ou estudar, mas simuladores e outras babozeiras que pagam diarias a quem vai escolher o material no exterior são comprados a toda hora.

Anônimo disse...

Tche, desde quando os Exércitos existem para valorizar profissionais!!!!!!
Exércitos existem para fazer a guerra ou evitá-la!
Escolheste a profissão errada!

Anônimo disse...

Simulador. Com esse novo simulador, aquela velha frase do Exército muda de sentido: Treinamento fácil, combate difícil. Tinham é que treinar com munição real e vivendo a situação no campo, mexendo no material. Esse simulador vai acabar com a prática real do Exército da 6ª economia mundial do Pré-sal, a sair do campo e ir para uma sala, até a primeira pane do software, em que o exército também não terá verba para consertar.

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